Separar-se dói, mas também pode ser uma benção

Monja Coen, Primaz Fundadora da Comunidade Zen-Budista de São Paulo, discorre sobre sobre separação, desilusão, desapego e amor neste belíssimo texto feito especialmente para o Casar, descasar, recasar. Desfrute!

Foto: Luís Furquim

“Nem sempre as pessoas com quem iniciamos a travessia são as mesmas com quem chegaremos do outro lado. Mas sempre há alguém por perto. Nunca estamos sós” (Foto: Luís Furquim)

Monja Coen

É possível separar-se de alguém com respeito e com ternura.

É possível um divórcio verdadeiramente amigável.

Mas para isso é preciso que as duas pessoas envolvidas no processo de desfazer um laço de intimidade tenham amadurecido o suficiente para conhecer a si mesmas.

Caminhamos lado a lado com algumas pessoas em alguns momentos da vida.

Minha professora de hatha ioga, Walkiria Leitão, comentou em uma de nossas aulas:

“A vida é como atravessar uma ponte. Nem sempre as pessoas com quem iniciamos a travessia são as mesmas que nos cercam agora ou com quem chegaremos do outro lado. Mas sempre há alguém por perto. Nunca estamos sós.”

O medo da solidão, muitas vezes, faz com que as pessoas suportem o insuportável. Ou se lamentem após uma separação, apegadas até mesmo ao conflito conhecido.

Ainda há mulheres que sofrem violências morais e até mesmo físicas de seus companheiros ou companheiras.

Ainda há homens que sofrem violências morais e até mesmo físicas de suas companheiras ou companheiros.

Como dar limites? Como conhecer esses limites?

Quando os limites são desrespeitados, as dificuldades começam. Dificuldades que podem levar à separação e ao divórcio. Dificuldades que podem levar ao sofrimento filhos e filhas, animais de estimação, amigos, familiares.

Caminhamos lado a lado.

Ou não.

Quando nos afastamos e nos distanciamos, nunca é repentino.

Um processo que, se desenvolvermos a clara percepção da realidade do assim como é, poderemos prever, antecipar e até mesmo alterar o desenvolvimento do processo.

Entretanto, se não conseguirmos antever o que já acontece, se colocarmos lentes fantasiosas sobre a realidade, poderemos nos desiludir e nos sentirmos traídos na confiança mais íntima do ser.

Professor Hermógenes, um dos pioneiros do yoga no Brasil, fala sobre a criação de uma nova religião chamada “desilusionismo”:

Cada vez que temos uma desilusão estamos mais perto da verdade, por isso agradecemos.”

Se você teve uma desilusão é porque não estava em plena atenção. Mas não fique com raiva nem de você nem da outra pessoa.

Nada é fixo. Nada é permanente.

Saber abrir mão, desapegar-se – até da maneira como tem vivido – é abrir novas possibilidades para todos.

Por que sofrer? Por que manter relações estagnadas ou de conflito permanente? Ou como transformar essas relações e dar vida nova ao relacionamento?

Apreciar e compreender a vida em cada instante é uma arte a ser praticada.

Separar-se dói, confunde, mexe com sonhos e estruturas básicas de relacionamentos.

Separação pode ser também uma bênção, uma libertação de uma fantasia, de uma ilusão.

Observe em profundidade.

Será que ainda é possível restaurar o vaso antigo?

No Japão, as peças restauradas são mais valiosas do que as novas. Tem história, emoção, sentimento.

Cuidado com o eu menor.

Cuidado com sentimentos de rancor, raiva, vingança.

Esse sentimentos destroem você, mais do que as outras pessoas.

Desenvolva a mente de sabedoria e de compaixão.

Queira o bem de todos os seres. Isso inclui você.

Cuide-se bem e aprecie a sua vida – assim como é –, renovando-se a cada instante e abrindo portais para o desconhecido, o novo – que pode ser antigo, mas novo a cada instante.

Mantenha viva a chama do amor incondicional e saiba se separar (se assim for) com a mesma ternura e respeito com que se uniu.

Esse o princípio de uma cultura de paz e de não violência ativa.

Que assim seja, para o bem de todos os seres.

Mãos em prece

Monja Coen é a Primaz Fundadora da Comunidade Zen-Budista, com sede em São Paulo, onde promove diferentes atividades, como práticas de meditação, cursos e palestras, além de casamentos e outras cerimonias religiosas; www.monjacoen.com.br. É autora, entre outros, de “Sabedoria da Transformação” (editora Planeta).

O que filho de pais separados pode ensinar sobre relacionamento?

Por Giovanna Maradei

Separar-se não é fácil, mas ser filho de pais separados não fica muito atrás. OK, você ganha presentes em dobro, mas também passa por cada dor de cabeça! Torna-se o ponto de encontro de um casal que, para dizer o mínimo, não está muito a fim de se ver – isso quando ainda se falam. E mais: tem de dividir roupa, tempo, atenção, as contas, entre outros problemas que jovens criados em famílias do tipo comercial de margarina nem imaginam.

A posição é difícil e trabalhosa, mas pode gerar um conhecimento precioso.

Quase sempre, apesar dos pesares, eles se tornam pós-graduados em mediação de conflitos. Também descobrem cedo o que querem e o que não querem de um parceiro; aprendem na marra que o amor, por mais forte que seja, pode acabar; que o padrão tradicional de família é apenas um entre outros e, com os pés bem fixos no chão, dão aula de como lidar com relacionamentos amorosos. Sem crise!

Confira o que esses filhos de pais separados podem ensinar sobre amor, convivência, casamento e separação!

Daniela Leonetti“Se terminasse meu namoro, não veria isso como o fim do mundo. Acredito que sempre terá alguém melhor para você depois.”

Daniela Leonetti, 24 anos, estudante

 


Juliana Benetti“Sou meio o clichê de filhos de pais separados, do tipo que tem medo de relacionamentos. Mas se tem uma coisa que aprendi é que ser independente é fundamental para mulher. Minha vida seria muito diferente se minha mãe não fosse financeiramente independente.”

Juliana Benetti, 22 anos, estudante

 

Gezio Santos“Depois de viver a separação dos meus pais, aprendi que os filhos devem estar acima de tudo. Tanto que após o meu divórcio a guarda do meu filho ficou comigo.”

Gezio Santos, 36 anos, técnico em T.I

 

Cristiane Senna“Nós, filhos de pais separados, temos visão menos lúdica dos relacionamentos. Somos mais calejado pela vida, sabe? Não que isso seja um problema, mas a gente pensa diferente. Eu, por exemplo, não acho que relacionamento ou casamento é eterno.” 

Cristiane Senna, 30 anos, jornalista

 

Fernanda StenzelComo desde pequena vivi com meus pais brigando, sei o que não quero em um relacionamento. Não me acomodaria em uma relação que não tivesse mais sentido. Também tenho mais noção de que relacionamentos não são necessariamente um mar de rosas.”

Fernanda Stenzel, 21 anos, jornalista

 

 Marta Capuano“A separação dos meus pais mudou tudo. Passei anos com muito medo de me envolver e isso só mudou com a maturidade e muita terapia. Não acredito que exista uma regra, depende muito da forma como se deu a separação.”

Marta Capuano, 50 anos, administradora

 

Elisa Espósito“Ter os pais separados torna os contos de fada apenas contos de fadas. Desde cedo você entende que um relacionamento é cheio de altos e baixos, tem brigas e pode terminar sem um final feliz, mas isso não é o fim do mundo.”

Elisa Espósito, 23 anos, webdesigner

 

marina costa vasconcelos“É muito mais difícil para mim entrar num relacionamento depois do que vi no relacionamento dos meus pais. Mas, conforme fui crescendo, tentei abstrair e pensar que comigo pode ser diferente, porque se eu ficar pensando muito nisso, não consigo viver direito.”

Marina Costa Vasconcellos, 18 anos, estudante

 

Giovanni Naufal“Tive duas mães bem presentes na minha vida. Consigo ver que, se um relacionamento não está funcionando, provavelmente, a separação é melhor tanto para o casal quanto para os filhos.”

Giovanni Naufal, 26 anos, publicitário

 

Victoria Matsumoto“Aprendi que a frase ‘não estamos brigando, estamos apenas discutindo’ é sinal de que as coisas estão bem ruins. Até hoje, quando vejo algumas falhas no meu relacionamento que me remetem ao casamento dos meus pais me dá um certo desespero, mas acho que acabamos aprendendo com os erros deles”

Victoria Matsumoto, 20 anos, estudante

 

Luis FurquimDescobri que é importante independência financeira. Sabe, é como ‘amigos, amigos, negócios a parte’, tem que ser ‘amor, amor e rendas separadas’”

Luís Furquim, 26 anos, engenheiro

 

Victoria Gruber“Quando seus pais são separados, você acaba aprendendo por conta própria que sua relação não vai ser igual a deles. Que isso varia de pessoa para pessoa. Hoje namoro e não fico pensando em como seria se a gente se separasse. Por enquanto, está da hora, então é o que é.”

Victoria Gruber, 17 anos, estudante

 

Vinicius GuilhermeVejo a separação como boa parte das pessoas vê, como algo que pode ocorrer a qualquer momento, mas tento ser maleável no relacionamento para evitar que qualquer briga acabe com o namoro. Também não tenho aquela visão de ‘família padrão’. Sempre me imaginei pai solteiro que ia ‘dar um jeito’ de adotar uma criança.”

Vinicius Guilherme, 21 anos, estudante

 

Filhos Daniel“Eu nunca passei por separações traumáticas. Mas não tenho medo nenhum disso. O fato de os meus terem se separado não causou nenhum trauma em mim”

Daniel Manreza, 27 anos, arquiteto