“A Garota no Trem” dá o que pensar!

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Emily Blunt, o melhor do filme, no papel de Rachel, alcoólatra, desempregada e deprimida, que sofre pelo divórcio recente em uma de suas viagens diárias de trem entre Ashbury e Londres (Fotos: divulgação)

“Propostas para amores melhores.” Quem é tonto (ou tonta) de se deparar com título tão promissor como este e rejeitar o respectivo texto? Ele estava visível no alto da minha pilha de jornais velhos que seguiria para a reciclagem. Foi salvo pelo título-gongo.

O texto, publicado na “Folha de S. Paulo” do último dia 3, não pôde se revelar mais pertinente. Tratava do filme que eu havia assistido um dia antes: “A Garota no Trem”, uma adaptação do best-seller da britânica Paula Wawkins.

Muito mais interessante do que ler uma crítica antes de ir ao cinema é se deleitar com uma boa pensata depois da sessão, quando você está imbuído do clima da história, da trama, da alma dos personagens ou, no mínimo, ainda não teve tempo de esquecer o nome do filme ou do diretor.

É como ir ao cinema com um amigo sensível, perspicaz, e depois trocar ideia sobre a fita, caminhando de volta para casa ou bebericando na mesa do bar. Até película ruim é gostoso comentar. A visão diferente de um pode ajudar o outro a digerir o que não estava entendendo, joga luz numa beleza que nem todo mundo viu… Enfim, estica o prazer do filme para além do escurinho do cinema. Mas esse prazer não é uma unanimidade.

Na turma de amigos com quem assisti “A Garota”, havia a prima de alguém, uma mulher de seus 50 anos, simpática e que se disse grande fã de cinema. Passados alguns minutos de papo, ela diz, visivelmente admirada, que nunca, a palavra é nunca, mesmo, ter conversado sobre um filme após a sessão.

A história às vezes nem importa ou importa menos, e muito mais a construção de ideias que o filme leva o expectador a fazer. O psicanalista e escritor Contardo Calligaris, por exemplo, narrou no jornal os seus “pensamentos na saída do cinema”. É dele o texto cujo título assertivo me impeliu a levar o jornal velho da boca do lixo de volta para a sala.

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A bela Megan, interpretada por Haley Bennett, e cuja vida é espiada diariamente por Rachel através da janela do trem

O longa em questão é um thriller centrado nos temas casamento, traição, recasamento e alcoolismo. Sobre eles, Calligaris destilou pensamentos cruciais. E o campeão de todos é: valer-se da série de nossas uniões e desuniões para antecipar problemas que deverão se repetir. “Que tal cada um entrevistar o ex do outro?”, propôs o psicanalista. Afinal, o parceiro (ou parceira) anterior sempre conhece melhor o seu amor do que você.

O “Casar, descasar, recasar” defende para o bem dos casais que considerem a forma como o atual parceiro (ou parceira) terminou suas antigas relações. A probabilidade de repeteco beira os 100%!

Toda mãe ou pai, inclusive, devia ensinar às suas filhas e filhos: confere aí como essa pessoa nova na sua vida foi nas suas histórias amorosas e como ela é hoje com os seus ex.

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O ator Justin Theroux, na pele de Tom: um ex-marido, com amante e novo casamento

Na adolescência, a prática de considerar o passado do pretendente era comum, com comentários do tipo: “Aquele cara foi muito sacana com a fulana; quero distância!”. Ou “tome cuidado com essa mina, lembra o que ela aprontou com o fulano?”. Mas parece que a gente cresce e emburrece. Ou adquire arrogância e passa a crer, feito príncipes e princesas, que “comigo vai ser diferente”. Ledo engano.

Outro pensamento interessante de Calligaris na saída do cinema: “Geralmente, separações acontecem por boas razões, mas na hora a gente esquece isso”. O pior, eu diria, é quando a pessoa nunca chega a lembrar. O resultado tende a ser melancólico: uma vida que segue apegada ao nada, a uma história que foi real, mas acabou e agora é só um fantasma – e que assombra de verdade.

O mesmo vale para a banalização da perda e seu respectivo luto.

Diz o colunista que “qualquer separação produz o fantasma de uma perda”. Discordo. A perda é megarreal, o luto após o derradeiro fim é fenomenal, inclusive para o parceiro que quis a separação. Banalizar o luto, rejeitá-lo, isso, sim, é garantia de viver assombrado. Do contrário, sobra crescimento pessoal, um ganho que toda separação tem potencial para produzir.

Aqui vai o trailler do filme! 🙂

 

 

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